A Globo aproveitou o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa para lançar um site, o Memória Globo, no qual se defende de graves acusações, como a suspeita de ter sido favorecida pelo governo militar e o fato de ter prejudicado Lula em edição do debate com Collor em 1989.

Os textos confirmam que Roberto Marinho tinha simpatia pelo regime militar e reconhece que a cobertura do movimento por eleições diretas não foi "adequada", devido a pressões sofridas pelo dono da rede. Mas, em geral, os artigos visam limpar a imagem da emissora — que, como todas as outras redes, deve explicações ao público, por tratar-se de concessão pública. Leia alguns trechos abaixo (ou a íntegra, que inclui vídeos) e tire suas conclusões.

:: Concessão de canais

Afirma-se, com freqüência, que o crescimento da Rede Globo de Televisão se deu graças à sua estreita ligação com o regime implantado em março de 1964. (...) Em 1988, em entrevista à Folha de S. Paulo, Roberto Marinho admitiu ter apoiado a “ação construtiva” desses governos, mas disse que “fez questão de não obter favores”. Desta forma, nenhuma das concessões obtidas pela TV Globo foi dada pelos militares. As duas únicas concessões foram outorgadas antes do período militar. (...) O jornalismo da Globo não recebeu nenhum tratamento diferenciado durante o período militar. Como todos os veículos de informação, o seu noticiário sofreu com a censura. (...) A censura não se limitava às notícias: atuava também no entretenimento.

:: Acordo com a Time-Life

(...) Dois meses depois [da inauguração da TV Globo], Carlos Lacerda denunciaria como ilegais as relações da emissora com o grupo Time-Life. Segundo o então governador da Guanabara, os acordos firmados pela Globo com a empresa norte-americana feriam o artigo 160 da Constituição brasileira, que proibia a participação de capital estrangeiro na gestão ou propriedade de empresas de comunicação.

No dia 20 de abril de 1966, o próprio Roberto Marinho depôs na CPI [que investigava o caso na Câmara]. (...) Ele explicou aos congressistas que dois contratos haviam sido firmados com o Time-Life, um contrato de assistência técnica e uma conta de participação. (...) Um dos pontos mais polêmicos da CPI foi a análise das funções na TV Globo do assessor enviado pelo Time-Life, o Joe Wallach. (...) No seu depoimento, Joe Wallach afirmou que era apenas um consultor, que dava idéias gerais de promoção, de assistência técnica e de compra de mercadorias. Ele disse não ter nenhuma responsabilidade sobre a parte financeira e nem sobre a programação da emissora. (...) Os parlamentares consideraram que os contratos firmados com o Time-Life feriam a Constituição, alegando que a empresa norte-americana estaria participando da orientação intelectual e administrativa da emissora.

:: Caso Proconsult

Em 15 de novembro de 1982, ocorreram as primeiras eleições diretas para governador após a instauração do regime militar. (...) O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu informatizar pela primeira vez a fase final da apuração. (...) No Rio de Janeiro, para realizar o processamento eletrônico dos dados, o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) contratou a Proconsult. Muitos veículos de comunicação resolveram montar um esquema próprio – paralelo à apuração do TRE – para realizar a totalização dos votos. O jornal O Globo, no Rio, foi um deles. (...)

A TV Globo nunca contratou a Proconsult. (...) O processo do Globo era lento. (...) Foi, portanto, um erro estratégico da Globo atrelar a sua cobertura ao jornal. (...) E, em 18 de novembro, Leonel Brizola resolveu reunir a imprensa internacional e criticar a morosidade nas apurações. O candidato afirmou que a divulgação de dados contraditórios pelo TRE, pelas Organizações Globo e pelo Jornal do Brasil gerava um ambiente confuso e criava um clima favorável à fraude eleitoral. (...)

Os boletins oficiais emitidos pelos computadores da empresa contratada pelo TRE começaram a apresentar erros: o número de votos de alguns candidatos diminuiu, assim como desapareceram muitos votos brancos e nulos. (...) Em 24 de novembro, Saturnino Braga afirmou, na tribuna do Senado, que a Proconsult, com o apoio das Organizações Globo, estaria manipulando a apuração da eleição, computando somente os resultados favoráveis aos candidatos do PDS e omitindo os boletins que beneficiavam os candidatos do PDT.

Alguns dias depois, o tenente-coronel Haroldo Lobão, responsável pela elaboração do programa da Proconsult, assumiu toda a responsabilidade pelos erros cometidos pela empresa na computação dos votos. O caso, no entanto, ganhou dimensão de escândalo quando, na edição de 27 de novembro, o Jornal do Brasil denunciou que, juntamente com a Rádio Jornal do Brasil, havia sofrido pressões por parte da Proconsult para mudar os resultados que vinha divulgando.

Frente às novas denúncias, o TRE resolveu pedir, ainda no dia 27 de novembro, abertura de inquérito na Polícia Federal e aprovou a realização de uma auditoria técnica na Proconsult. (...) Em 5 de dezembro, a Proconsult foi considerada apta a continuar a totalização eletrônica dos votos e recomeçou o seu trabalho. (...) Os juízes do Tribunal Eleitoral concluíram, no entanto, que os erros não foram intencionais.

:: Comícios das Diretas Já

(...) Ainda antes do lançamento da campanha, no dia 29 de março de 1983, o Jornal Nacional apresentou uma matéria, de dois minutos e 16 segundos, informando que a Executiva do PMDB se reuniria na semana seguinte para lançar o movimento. (...) Em 27 de novembro de 1983, ocorreu a primeira manifestação pública expressiva a favor das Diretas. (...) Em matéria de um minuto e 17 segundos, os telespectadores foram informados sobre o show de música e sobre discursos de representantes da igreja católica, das entidades estudantis e dos partidos políticos. O momento mais emocionante foi o anúncio da morte do senador Teotônio Vilela, um dos principais promotores da campanha pelo voto direto.

(...) A Globo registrou esses comícios [em outras capitais] pelas Diretas nos seus telejornais locais. Naquele primeiro momento, as manifestações não entraram nos noticiários de rede por decisão de Roberto Marinho. (...) Treze dias após o comício de Curitiba, a emissora passou a noticiar todas as manifestações de rua em rede nacional.

O primeiro comício a ser noticiado para todo o país foi o que hoje é considerado o primeiro grande comício das diretas, realizado na praça da Sé, em São Paulo, no dia 25 de janeiro. (...) A Globo sofreu a acusação de mentir ao telespectador dizendo que o comício era apenas uma festa em comemoração aos 430 anos da cidade de São Paulo. A origem da confusão foi a chamada da matéria, lida pelo apresentador Marcos Hummel, que se referia ao comício da Sé como um dos eventos comemorativos do aniversário da cidade. (...) E, se a chamada da matéria parecia não levar em consideração a dimensão política do comício, em seguida, a reportagem de Ernesto Paglia relatou com todas as letras o seu objetivo: pedir eleições diretas para presidente da República.

Se por um lado segmentos da sociedade pressionavam a Rede Globo para se engajar nas manifestações pelas Diretas, por outro a emissora vinha sendo pressionada pelos militares a não cobrir os eventos. (...) José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então vice-presidente de operações da TV Globo, confirma: “Naquele momento, a pressão sobre Roberto Marinho foi intensa. Foi uma frustração para mim e para toda a equipe de jornalismo, uma tristeza para o Armando Nogueira e a Alice-Maria, não poder fazer a cobertura de maneira adequada. (...)”

Naquele dia [10 de abril], chegou mesmo a adquirir a forma de intimidação pessoal. Antes de o Jornal Nacional ir ao ar, um helicóptero do Exército sobrevoou de maneira ameaçadora a sede da emissora, no Rio de Janeiro, postando-se na altura da janela da sala do então vice-presidente executivo, Roberto Irineu Marinho. Novos comícios a favor das eleições diretas realizaram-se (...). O Jornal Nacional cobriu os preparativos para as manifestações (...), com entradas ao vivo em seu noticiário, deu as últimas informações sobre os eventos. (...) Em 18 de abril, (...) foi determinada a censura prévia às emissoras de rádio e de televisão, sendo proibida a transmissão ao vivo de qualquer informação sobre a votação da emenda à Constituição. (...) Apesar de estar impedida de transmitir ao vivo, a Globo conseguiu burlar a proibição, como relata a repórter Sônia Pompeu.

:: Debate Lula versus Collor

(...) Entre o primeiro e o segundo turno da eleição, houve dois debates entre os candidatos Collor e Lula. (...) Os dois debates foram transmitidos na íntegra das 21h30 às 24h, por um pool formado pelas quatro principais emissoras de televisão do país: Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT. (...) No dia seguinte à sua exibição ao vivo e na íntegra, a Rede Globo apresentou duas matérias com edições do último debate: uma no Jornal Hoje e outra no Jornal Nacional. As duas foram questionadas. A primeira por apresentar um equilíbrio que não houve, e a segunda por privilegiar o desempenho de Collor. Mas foi a segunda que provocou grande polêmica. A Globo foi acusada de ter favorecido o candidato do PRN tanto na seleção dos momentos como no tempo dado a cada candidato, já que Fernando Collor teve um minuto e meio a mais do que o adversário.

O PT chegou a mover uma ação contra a emissora no Tribunal Superior Eleitoral. O partido queria que novos trechos do debate fossem apresentados no Jornal Nacional antes das eleições, como direito de resposta, mas o recurso foi negado. Em frente à sede da Rede Globo, no Rio de Janeiro, atores da própria emissora, junto com outros artistas e intelectuais, protestaram contra a edição. No entanto, a própria liderança do PT, apesar de não admitir a derrota, reconheceu que Lula não se saíra bem no confronto com Collor.

Os responsáveis pela edição do Jornal Nacional afirmaram, tempos depois, que usaram o mesmo critério de edição de uma partida de futebol, na qual são selecionados os melhores momentos de cada time. Segundo eles, o objetivo era que ficasse claro que Collor tinha sido o vencedor do debate, pois Lula realmente havia se saído mal. (...) Mas o episódio provocou um inequívoco dano à imagem da TV Globo. Por isso, hoje, a emissora adota como norma não editar debates políticos; eles devem ser vistos na íntegra e ao vivo. Concluiu-se que um debate não pode ser tratado como uma partida de futebol, pois, no confronto de idéias, não há elementos objetivos comparáveis àqueles que, num jogo, permitem apontar um vencedor.

:: Empréstimo do BNDES

Segundo informações divulgadas na imprensa, o BNDES teria realizado um empréstimo para salvar a Globopar. Esse empréstimo comprovadamente nunca aconteceu. Até porque as Organizações Globo conseguiram renegociar suas dívidas com outros credores privados. (...) Ignorando os fatos, em 13 de setembro de 2005, um dia antes da cassação do seu mandato por quebra do decoro parlamentar, o deputado Roberto Jefferson fez acusações à Globo e críticas contundentes ao BNDES em entrevista à Folha de S. Paulo e também na tribuna da Câmara. Ele acusava o banco de ter realizando um empréstimo de R$ 2,8 bilhões para salvar a Globopar. (...) No dia 14 de setembro, o BNDES distribuiu nota à imprensa demonstrando ser improcedente a afirmação de Roberto Jefferson de que o banco liberou crédito para a Globopar.

3 comentários:

Alex Teixeira disse...

A verdade sobre o impechment do Collor

Uma das principais razões para a queda de Collor foi o fato que o todo-poderoso presidente das Organizações Globo o Sr. Roberto Marinho teria descoberto que o Collor estaria armando um esquema de comunicação maior que a dele. Collor iria ter uma rede maior e mais poderosa que a Rede Globo.

Desde 1964 a Globo nomeia, comanda e controla o Ministério das Comunicações. Por quê? Para poder obter as vantagens das concessões de novos canais e controlar a concessão dos canais que vão para terceiros, impedindo que canais parem nas mãos de adversários políticos da Globo.

O fato de o ex-Presidente Collor ter trocado o ministro das Comunicações, na época, acabou desagradando muito Roberto Marinho e caiu como uma luva para José Carlos Martinez*, que foi tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor que se elegeu pelo PRN e que publicamente sempre se orgulhava de suas relações com o ex-Presidente.

Em poucos meses a sua rede de televisão, que na época se chamava OM (de Organizações Martinez), foi construída com a compra da TV Londrina, também no Paraná, e, em 1992, da TV Corcovado, no Rio – que Silvio Santos foi obrigado a vender por já possuir outra emissora na mesma cidade.

Essa transação, segundo denúncias da época, foi feita com dinheiro emprestado por PC Farias para dar apoio ao governo de Collor. Com essa estratégia passou a ter acesso à mídia nacional e principalmente às verbas do Governo Federal, via empresas estatais, que bancavam todos os programas da emissora.

Outro motivo principal foi o corte que o Collor fez nas verbas de comunicação, porque a Globo vive de dinheiro do governo. A Globo é a maior "estatal" do Brasil. Mais de 80% da verba da Globo vem do governo. Caixa Econômica, Banco do Brasil, Petrobrás, Exército, Marinha, Aeronáutica...

Assim em março de 92 entrou no ar a OM Brasil (Organizações Martinez), a primeira rede nacional formada fora do eixo Rio - São Paulo. A programação gerada em Curitiba (PR), iniciou sendo retransmitida por dez emissoras dos estados de Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, e São Paulo, além de Brasília e Recife pela TV Pernambuco.

A Copa Libertadores da América (com narração de Galvão Bueno que assumira a direção de esportes da emissora) foi transmitida com exclusividade pela Rede OM em 92 e atingiram, em muitos momentos, índices líderes de audiência.

Seus planos de expansão tinham como pré-requisito a participação de Fernando Collor na compra de outras emissoras, o que acabou não acontecendo.

A Rede Globo acuada pelo crescimento da OM e de sua estreita ligação com o ex-Presidente Collor lançou mão de seu tremendo poder para interferir nos rumos da vida política nacional na manipulação do noticiário em favor de interesses obscuros, citando literalmente a invenção dos "caras-pintadas" na produção da minissérie Anos Rebeldes e que estimulou o movimento dos caras-pintadas, pela deposição do mesmo Collor.

Na verdade nunca existiram caras-pintadas. Os estudantes foram às ruas para pleitear ingressos de meia-entrada junto ao, na época, vereador Édson Santos. E aí, com aquele bando de alunos na rua, foi dado tinta verde e amarela para eles se pintarem. E a Globo tirou uma fotografia fechadinha de uns 10, 15 caras, que pareciam uma multidão. Não tinha nenhuma foto de campo aberto.

No Jornal Nacional aquilo foi repicado como se fossem milhões de pessoas. Estudante dando declaração, isso, aquilo... E a Globo montou os caras-pintadas. O simplório Collor pediu para todo mundo vestir amarelo e aí vestiram preto no dia seguinte por conta do que a Globo montou e inventou a partir de um protesto de meia-entrada dos estudantes. Essa história você jamais vai ver contada em qualquer meio de comunicação.

*José Carlos Martinez morreu num desastre aéreo em outubro de 2003.

Anônimo disse...

Vivo feliz por saber que o fim da TV GLOBO está próximo! Depois de pelo menos 4 décadas fazendo do país um enorme contingente de retardados mentais, alienados, analfabetos e desinformados, o império da nefasta família Marinho começa a ruir, nós, brasileiros aguardamos ansiosamente o dia em que veremos os transmissores da TV GLOBO serem lacrados e essa maldita televisão definitivamente extinta.

Carlos F.Righetti disse...

Sabemos que os grandes impérios (TODOS ELES !) não foram construídos sem que houvesse por trás algum tipo de falcatrua ou círculos de influência. Ainda mais quando se fala de jornal, rádio e Televisão, que todos nós sabemos estão nas mãos de grupos familiares. Denunciar as concessões, as vantagens recebidas com dinheiro público e toda a sorte de irregularidades é válido e importantíssimo para a democracia, porém desejar a "morte" de uma emissora considerada a quarta no mundo em qualidade é no mínimo uma ingênua forma de vingança. Este ódio do amigo anônimo(comentário acima) pela Globo, mais parece de um marido traído ou desprezado por sua amada. Será que foi ele não é um ex-Global?